ESMO 2023 novidades em oncologia: o que muda na prática clínica
Postado em: 04/10/2023
A ESMO 2023 trouxe resultados que devem influenciar diretamente o tratamento do câncer de pulmão de não pequenas células nos próximos anos. Durante o congresso, quatro estudos apresentados na sessão presidencial chamaram atenção por seu potencial de modificar protocolos já estabelecidos e ampliar as opções terapêuticas para grupos específicos de pacientes.
Os trabalhos abordaram diferentes cenários da doença, desde pacientes com tumores ressecáveis até casos com alterações moleculares específicas que podem se beneficiar de terapias-alvo. Em comum, todos reforçam uma tendência cada vez mais presente na oncologia: tratamentos mais personalizados e direcionados às características biológicas de cada tumor.
Neste conteúdo, você vai entender os principais destaques comentados pelo Dr. Marcelo Cruz e o que essas novidades podem representar para a prática clínica.
O que é a ESMO e por que seus estudos são importantes?
A ESMO (European Society for Medical Oncology) é uma das principais organizações científicas da oncologia mundial. Todos os anos, seu congresso reúne especialistas de diversos países para apresentar os resultados dos estudos mais relevantes da área.
Entre centenas de pesquisas apresentadas, alguns trabalhos são selecionados para a chamada sessão presidencial, espaço reservado para estudos com potencial de gerar impacto imediato na prática clínica.
Em 2023, quatro desses estudos tiveram como foco o câncer de pulmão de não pequenas células e apresentaram resultados que podem influenciar a forma como diferentes grupos de pacientes são tratados.
CheckMate 77T reforça o papel da imunoterapia antes e depois da cirurgia
O estudo CheckMate 77T avaliou pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células em estágio ressecável, ou seja, candidatos à cirurgia.
A estratégia analisada combinou nivolumabe e quimioterapia antes da cirurgia, seguido pela continuidade da imunoterapia após o procedimento.
Nos últimos anos, o tratamento neoadjuvante vem ganhando espaço na oncologia pulmonar por permitir que a doença seja combatida antes da cirurgia, aumentando as chances de controle do tumor e reduzindo o risco de recorrência.
Os resultados apresentados mostraram um ganho significativo em sobrevida livre de recorrência, reforçando a importância dessa abordagem e consolidando uma tendência que já vinha sendo observada em estudos anteriores.
Estudo ALINA mostra benefício expressivo para pacientes com alteração ALK
Outro destaque da ESMO 2023 foi o estudo ALINA, que avaliou o uso do alectinibe em pacientes com câncer de pulmão que apresentam translocação do gene ALK.
Essa alteração molecular já possui tratamentos eficazes no cenário metastático. A novidade foi avaliar o impacto da terapia-alvo em pacientes com doença inicial, após a cirurgia.
Os participantes receberam alectinibe por dois anos no período pós-operatório. Os resultados demonstraram uma redução de aproximadamente 70% no risco de recorrência da doença.
Esse é um dos resultados mais expressivos apresentados no congresso e reforça o potencial das terapias-alvo também em fases mais precoces do tratamento.
Selpercatinibe amplia as opções para pacientes com fusão RET
A medicina de precisão também esteve em destaque com os resultados envolvendo o selpercatinibe, terapia direcionada para pacientes com fusão do gene RET.
O estudo comparou o medicamento com os tratamentos que tradicionalmente eram utilizados na primeira linha, como quimioterapia isolada ou combinada à imunoterapia.
Os dados mostraram melhora significativa da sobrevida livre de progressão, fortalecendo o papel dos testes moleculares na identificação de pacientes que podem se beneficiar de tratamentos específicos.
À medida que novas alterações genéticas são identificadas e novos medicamentos são desenvolvidos, cresce a importância de compreender o perfil molecular do tumor antes da definição da estratégia terapêutica.
Amivantamabe apresenta resultados promissores para mutação EGFR exon 20
O quarto estudo destacado envolveu pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células portadores da mutação EGFR exon 20, uma alteração menos frequente e historicamente mais difícil de tratar do que outras mutações do EGFR.
O estudo avaliou o uso do amivantamabe em combinação com quimioterapia como tratamento de primeira linha, comparando essa estratégia com a quimioterapia isolada.
Os resultados demonstraram ganho significativo em sobrevida livre de progressão, além de melhores perspectivas de controle da doença para esse grupo específico de pacientes.
O estudo amplia as opções terapêuticas disponíveis e reforça a importância da caracterização molecular detalhada do tumor antes do início do tratamento.
O que esses estudos têm em comum?
Embora tenham avaliado populações diferentes, os quatro estudos apresentados na sessão presidencial da ESMO 2023 compartilham uma característica importante: todos reforçam o papel da personalização do tratamento.
Os resultados mostram que compreender as características biológicas do tumor permite selecionar estratégias mais adequadas para cada paciente, seja por meio da imunoterapia em tumores ressecáveis ou do uso de terapias-alvo em alterações moleculares específicas.
Essa evolução acompanha uma transformação mais ampla da oncologia moderna, na qual exames moleculares e biomarcadores têm participação cada vez maior nas decisões terapêuticas.
Como essas novidades podem impactar os pacientes?
Nem toda novidade apresentada em um congresso passa a fazer parte da prática clínica imediatamente. Muitos tratamentos ainda precisam passar por processos regulatórios e de incorporação ao sistema de saúde.
Mesmo assim, os resultados apresentados na ESMO 2023 trazem atualizações e perspectivas importantes para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células.
Entre os impactos estão:
- Ampliação das opções terapêuticas para grupos específicos de pacientes;
- Maior utilização de terapias-alvo baseadas em alterações moleculares;
- Consolidação da imunoterapia em novos cenários de tratamento;
- Estratégias mais personalizadas e direcionadas ao perfil biológico do tumor.
Vale reforçar que a aplicabilidade de cada avanço depende das características individuais de cada caso e deve ser avaliada pelo oncologista.
FAQ — Perguntas frequentes
Essas novidades já estão disponíveis no Brasil?
Algumas dessas estratégias já possuem aprovação em determinados contextos clínicos, enquanto outras ainda dependem de processos regulatórios. A disponibilidade pode variar de acordo com o tratamento.
Todo paciente com câncer de pulmão deve realizar testes moleculares?
A avaliação molecular é importante em diversos casos de câncer de pulmão de não pequenas células, pois pode identificar alterações genéticas que influenciam diretamente a escolha do tratamento. A indicação deve ser definida pelo oncologista.
O que são terapias-alvo?
São medicamentos desenvolvidos para atuar sobre alterações específicas presentes nas células tumorais. Diferentemente dos tratamentos convencionais, essas terapias são direcionadas a mecanismos moleculares envolvidos no crescimento do câncer.
Avanços que reforçam a importância da oncologia de precisão
Os estudos apresentados na sessão presidencial da ESMO 2023 mostram como o tratamento do câncer de pulmão continua evoluindo em direção a abordagens cada vez mais personalizadas.
Seja pela expansão da imunoterapia em pacientes com doença ressecável ou pelo avanço das terapias-alvo para alterações moleculares específicas, os resultados reforçam a importância de compreender as características de cada tumor antes de definir a estratégia terapêutica de forma personalizada.
Se você deseja entender como essas novidades podem impactar o seu tratamento ou o de um familiar, converse com o Dr. Marcelo Cruz.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.
Dr. Marcelo Cruz
Oncologista Clínico
Registro CRM-SP 100479 l RQE 121461